As cores nos Molossos de Arena, setembro de 1994
Autor: Gilbert de Mulder Publicado em: Revista «Club Español de los Molosos de Arena» Data: setembro de 1994 Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo introduz uma série dedicada à genética das cores nas raças agrupadas como Molossos de Arena. Gilbert de Mulder explica o funcionamento básico dos genes e alelos relacionados com a cor da pelagem, centrando-se especialmente no locus “S” e na sua influência no aparecimento de manchas brancas. O texto analisa casos concretos no Mastiff, Bullmastiff, Mastim Napolitano, Dogue de Bordeaux e Fila Brasileiro, defendendo a importância de estudar os pedigrees e as linhas de criação para evitar combinações genéticas não desejadas.
Por @a.myanimal
Por Gilbert de Mulder
Introdução
Há datas na vida de um criador que são inesquecíveis, como pode ser o dia de ganhar a Monográfica, ou o ponto de Madrid, ou o último CACIB para ser Campeão Internacional. São datas que todos recordamos porque são agradáveis, mas temos a tendência de esquecer as datas em que nos aconteceu algo que nos deixou “marcados” para o resto da vida. Assim, para mim, não preciso dizê-lo, é o dia 9 de agosto de 1993. Além disso, quem visita os poucos canis que tenho verá uma placa comemorativa. Tive que enfrentar o fato de que, em uma determinada combinação, nasceram filhotes com branco demais em certa raça.
Desde aquele dia, tentei compreender melhor a genética das cores. Aprofundei, com base em estudos, as possíveis interferências que fazem com que um cão seja de uma ou de outra cor. Como intervêm tantos loci e, em cada locus, uma possibilidade de alelos, meu estudo será dividido em vários artigos. Também estudar uma raça permite, com bastante facilidade, fazer um estudo sobre outra raça, de tal forma que será considerada cada raça do nosso Clube.
Quem quiser saber mais, de modo geral, sobre as cores deverá pedir o número de junho de 1992 da American Kennel Club Gazette, onde, segundo meus critérios, está o melhor artigo sobre cores, “Color Genetics in the Dog”, por Gail Knapp.
Para evitar citar a bibliografia a cada momento, ela consiste em “The Inheritance of Coat Colors in Dogs”, de C. C. Little; “Genetics of the Dogs”, de M. B. Willis; e “Genetics for Dog Breeders”, de R. Robinson. Do livro de Robinson há uma tradução para o espanhol. Outro livro de qualidade é “Genetics for Dog Breeders”, de F. Hutt, mas temo que será difícil consegui-lo, embora trate pouco sobre cores. Também quero assinalar que os diferentes autores nem sempre estão de acordo sobre os alelos que podem influir e, embora exista alguma informação sobre algumas raças, sobre outras não há padrão genético e, portanto, sempre será uma opinião pessoal, tanto optar pela visão de um autor quanto pela minha opinião depois de estudar o tema, se não existir documentação.
Em breve, recordemos o mecanismo da genética: os cromossomos vêm em pares e, quando se cruza um macho com uma fêmea, cada um dá um cromossomo no óvulo ou no sêmen, que formam novamente os pares em um óvulo fecundado. Nos cromossomos estão os genes e, em cada locus, ou lugar, do gene há uma característica hereditária. Os loci podem ter diferentes formas, os alelos, alelo = de outra forma, e justamente na genética das cores há, para cada locus, um número importante de alelos que influem.
O locus “S”, bênção ou desgraça
Se começo com este locus é porque justamente ele foi a causa de eu adquirir alguns conhecimentos gerais por ter lido livros e artigos, e de me pôr a estudar mais seriamente em profundidade. Também quero escrever um artigo que seja compreensível sem que seja necessário ser especialista em genética para entendê-lo.
O símbolo “S” vem de SELF, traduzido livremente como só/autônomo, embora às vezes, em conversas, se utilize “Solid”, sólido.
Este locus, em muitas raças, como por exemplo o Boxer, o Dálmata etc., define a proporção de branco que o cão tem. Às vezes, como no Samoyedo, existe a presença de outro locus, neste caso particular o locus “C”, que acentua o branco no alelo C(ch). Mas nenhum destes casos está nos Molossos de Arena.
Este locus tem 4 alelos, ou seja, pode apresentar-se em 4 possibilidades de importância da presença do branco, e são, por ordem de dominância, os seguintes:
S: Self, isto é, totalmente da cor do cão, sem nenhuma mancha branca, embora alguns autores digam que um “S” pode ter um pouquinho de branco.
S(i): Irish, que são cães que têm manchas brancas bem localizadas no peito e parte do abdômen, e nas pontas das patas. Há autores que confirmam que, se há presença de branco na ponta da cauda, já não é S(i).
S(p): Piebald, no qual as manchas podem encontrar-se no pescoço, na cara, no lombo, até mais acima das pontas das patas, os chamados “meias”, e na cauda. Um bom exemplo é o Bulldog inglês metade branco e metade de cor, ou o Bulldog francês branco e negro.
S(w): White piebald, onde o branco já é dominante, por exemplo o Dálmata, que é homozigótico em S(w).
Há uma regra que temos que ter muito clara: um cão branco, e quando se falar do locus “A” se entenderá melhor, NÃO existe. Todos os cães têm uma cor definida pelo locus “A”, mas são os alelos do locus “S” que definem se se “põe” branco. Assim, um Dálmata NÃO é um cão branco com algumas manchas negras, mas sim um cão negro, neste caso A(s), porém com S(w)S(w) em seu locus “S”, que o torna branco.
Estudo de cada raça dos Molossos sobre o locus “S”
Mastiff: é um caso muito claro e simples. O standard diz que o cão tem que ser de uma só cor, com máscara, o que quer dizer que, em todo caso, é um SS, visto que não pode interferir outro alelo que possa dar branco.
Bullmastiff: já é algo mais complicado. Os puristas da raça não querem branco, embora o standard diga que se permite uma “pequena” mancha no peito. Little e Willis o consideram como SS, enquanto Robinson não especifica nada sobre o locus S no Bullmastiff, somente o compara ao Boxer.
De onde vem então esta “pequena” mancha branca que o standard permite? É um bom exemplo de como a genética explica a história ou confirma as “influências” do princípio da raça. Quem sabe algo sobre o Bullmastiff sabe que é um cruzamento no qual se utilizou o Bulldog, refiro-me ao Bulldog antigo, como Eva e Crib, que são completamente distintos do Bulldog atual. Se olharmos os alelos do “S” no Bulldog, notar-se-á que há várias possibilidades: S(i), S(p), ambos recessivos. A outra raça era o Mastiff com SS dominante, e ao longo da história do Bullmastiff se deu preferência aos cães com o mínimo de branco possível. Portanto, embora se diga SS, o Bullmastiff em casos muito excepcionais poderia ainda ser Ss(i). Também existe a teoria de que o alelo “S”, em algumas raças excepcionais, produziria uma pequena mancha branca; Little chama isso de “modifications plus” ou “modificadores minus”.
Mastim Napolitano: segundo o standard, pode ter branco no peito e pouco branco nas pontas dos pés. Isto significa que o Napolitano é S(i). Nas desqualificações, e falei com Miguel Brunel Jr., que nunca havia visto o fenômeno, aparece como defeito o “branco”. Como não há nenhum padrão sobre a raça, comparei-a ao Dogue Alemão para descobrir como pode surgir branco até no corpo inteiro, se o cão é S(i). A resposta é que o Mastino, no locus “M”, pode ter MM, merle, que dá manchas brancas invadindo o corpo ou cães totalmente brancos que, além disso, são em muitos casos surdos e cegos, visto que o Mastino pode ser “azul”, o que confirma a presença de M.
Dogue de Bordeaux: o standard menciona branco no peito e nas extremidades das patas. Isto quer dizer que o Bordeaux é um típico exemplo de S(i). Se seguimos a teoria de Little sobre os plus e os minus, isto pode explicar “meias” e, a rigor, uma ponta de branco na cauda e branco no pescoço. Mas aqui, mais uma vez, saber algo sobre a história da raça pode explicar manchas até no corpo e na cara. O tão famoso e histórico Caporal tinha manchas brancas na cara e no corpo. A pergunta é: como no Bullmastiff existe a possibilidade de ter, ao lado do S(i) como normal, a presença de S(p) em alguns casos, dando cães S(i)s(p)? Kunstler menciona cruzamentos antigos, como no Bullmastiff, com Bulldogs, que são positivamente portadores de S(i), S(p) e, em alguns casos, S(w).
Pode ser uma hipótese aceitável, mas há uma possibilidade a mais, que me parece digna de ser considerada. A região de Bordeaux, estando ao lado da Espanha, não é absurdo pretender que alguns Dogos espanhóis foram para a França para os jogos com touros, como Goya pinta em suas gravuras. Por localização geográfica, tamanho, caráter e utilização, é muito provável que alguns cruzamentos de Dogues de Bordeaux tenham sido feitos com os Dogos espanhóis, que, estes sim, com toda certeza, foram cruzados com os Bulldogs ingleses e, como demonstram as gravuras, têm tudo para ser tanto S(i), como S(p) e, em alguns casos, S(w).
A seleção eliminou o máximo possível de branco, mas, pelo que vi pessoalmente, posso confirmar com quase certeza que o S(p) recessivo segue em alguns exemplares.
Mas é muito perigoso generalizar uma experiência própria. Tomás Pinto me confirmou o fenômeno e, além disso, sabia de uma ninhada com excesso de branco. Alfonso Curet também me confirmou que em alguns cruzamentos ele havia tido tanto branco que, por seus comentários, pode-se suspeitar da presença de S(p). Por outro lado, um criador francês me confirmou que, em certa combinação, parecida com a minha, havia tido filhotes com manchas brancas no corpo. Não há dúvida, para mim o locus/alelo S(p) ainda está presente no Dogue de Bordeaux.
Fila Brasileiro: é muito semelhante em suas manchas brancas ao Dogue de Bordeaux. O branco em excesso é penalizável. Mas há Filas que são claramente S(p), recessivo, o que demonstra que o alelo “p” pode estar presente. Não há dúvida: quem conhece um pouco a história do Fila sabe que foi cruzado com várias raças que são positivamente portadoras de S(p) e de S(w). A seleção eliminou o máximo possível de branco, mas é perfeitamente possível que alguns exemplares continuem portadores do S(p), pelo menos. Como é um gene recessivo em relação ao S(i), somente a má sorte pode combinar dois portadores produzindo S(p)S(p).
Permito-me traduzir um comentário que me enviou Inés Van Damme: “Há diferença entre o standard do CAFIB e o do CBKC. A cor branca sempre esteve presente no Fila. Há Filas que são totalmente brancos com manchas tigradas e Filas unicolores ou tigrados que mostram muito branco, branco em todo o pescoço, no focinho... O standard do CBKC aceita somente 1/4 do corpo com branco no ano de 1984, e isto sem aviso prévio, para ter uma melhor homogeneidade (...)”
Portanto, o Fila é positivamente portador de S(i), S(p) e, segundo o que diz Inés, provavelmente, em algumas exceções, ainda portador do S(w) no que se refere aos cães CAFIB.
Um trabalho de estudo para um Clube com consciência “genética”
Em uma discussão sobre o branco com uma criadora de prestígio e de “muitos anos”, eu me sinto neófito, ela me disse textualmente: “É simples, a culpa é do pai da ninhada”, demonstração de uma ignorância completa do que é genética e planejamento de linhas. NÃO é o pai; são os avós, os bisavós que é preciso olhar. Não quero pôr nenhum exemplo, assim evitamos polêmicas, mas um estudo bem feito pode dar indicações de que cão introduz um alelo. É questão de honradez e de estudo o que o cão “X” produziu e o que produzem seus descendentes.
Lamentavelmente, muitos criadores ainda não estão investigando as linhas e, em vez de buscar seriamente nos pedigrees, simplesmente ignoram os fatos ou culpam os demais. Um acompanhamento sério e o estudo somente podem ajudar a não juntar possíveis portadores de um recessivo “nefasto”.
Um conselho: sabemos que S é dominante sobre S(i), que por sua vez é dominante sobre S(p), etc., o que quer dizer que, quando aparecerem Filas com muitíssimo branco, podemos supor que tanto o pai como a mãe, embora de fenótipo normal, são portadores do gene recessivo, que para se manifestar tem que ser homozigótico. Também, em alguns casos, é impossível dizer se o cão é S(i) ou duvidosamente S(p), não há tabela de medidas e isto, naturalmente, se o cão é S(i)s(p). Por último, a consanguinidade reforça os genes recessivos. Em outras palavras, se um cão “X” aparece muito aparentado a ambos os progenitores, a força de S(p), por exemplo, aumenta e pode produzir cães S(i)S(p) em sua descendência, embora o fenótipo seja aparentemente S(i)S(i) de ambos os progenitores.
Com agradecimento a Tomás Pinto, Alfonso Curet e Inés Van Damme, p.o.d.a..
Perguntas frequentes
O que é o locus "S" na genética canina?
O locus "S" (Self ou Solid) na genética canina define a proporção de branco na pelagem de um cão, com diferentes alelos (S, S(i), S(p), S(w)) que influenciam a presença e localização de manchas brancas.
Como o locus "S" afeta as raças Molossos de Arena?
O artigo analisa como o locus "S" e seus alelos se manifestam em raças como Mastiff, Bullmastiff, Mastim Napolitano, Dogue de Bordeaux e Fila Brasileiro, explicando a origem de manchas brancas permitidas ou indesejadas.
Qual a importância de estudar pedigrees para a cor da pelagem?
Estudar pedigrees e linhas de criação é crucial para entender a herança genética das cores e evitar combinações indesejadas, especialmente ao lidar com genes recessivos que podem causar excesso de branco.
Por que alguns cães de raças Molossos de Arena apresentam manchas brancas?
A presença de manchas brancas em raças como Bullmastiff, Dogue de Bordeaux e Fila Brasileiro pode ser explicada pela influência de alelos recessivos do locus "S", muitas vezes originados de cruzamentos históricos com outras raças como o Bulldog.
Artigos relacionados
A displasia no Dogue de Bordeaux, setembro de 1994
Autor: Dr. Fontaine Publicado em: Revista «Club Español de los Molosos de Arena» Data: setembro de 1994 Conferência: sábado, 6/11/93 Tradução espanhola: P. Llorca Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo recolhe uma conferência do Dr. Fontaine sobre a displasia no Dogue de Bordeaux. O texto aborda os fatores hereditários, ambientais, alimentares e ligados ao exercício que podem influenciar o aparecimento ou agravamento da displasia. Também explica a importância da radiografia, o correto posicionamento do cão, as primeiras estatísticas de leitura de quadris na raça e a necessidade de realizar controles antes de utilizar exemplares na reprodução.
A idade ideal para reproduzir o macho e a fêmea Fila Brasileiro, abril de 1994
O artigo analisa as razões pelas quais o CAFIB estabeleceu normas restritivas sobre a idade mínima de reprodução e os períodos de descanso entre ninhadas no Fila Brasileiro. Paulo Santos Cruz defende que a maturidade sexual não equivale à maturidade física completa, especialmente em raças grandes e molossoides. O autor argumenta que reproduzir machos e fêmeas cedo demais pode prejudicar a saúde dos exemplares, enfraquecer a seleção e comprometer a qualidade da raça. O artigo foi publicado por Paulo Santos Cruz na revista “CLUB ESPAÑOL DE LOS MOLOSOS DE ARENA”, em abril de 1994, e traduzido por inteligência artificial.
Falando de cães: The Old English Mastiff, setembro de 1994
Autor: Jesús Cano Publicado em: «Club Español de los Molosos de Arena» Data: setembro de 1994 Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo continua uma série dedicada ao Old English Mastiff e revisa diferentes aspectos históricos relacionados à sua origem, evolução e uso funcional na Grã-Bretanha. Jesús Cano aborda a possível formação da raça a partir de cães autóctones britânicos e molossos asiáticos, a influência normanda, o antigo Ban-Dog, a linhagem de Lyme Hall e a participação de cães do tipo mastim em atividades como caça, defesa, bull-running, bull-baiting, combates com ursos e lutas entre cães. O texto também reflete sobre como esses usos deram origem a outros tipos caninos, especialmente o Bulldog e o Staffordshire Bull Terrier.
Cores no Fila Brasileiro, julho de 1993
Autora: Mar Olivas Tur Publicado em: Revista «Club Español de los Molosos de Arena» Data: julho de 1993 Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo aborda a polêmica sobre as cores admitidas no Fila Brasileiro e defende a posição do CAFIB quanto à rejeição do preto como cor correta na raça. Mar Olivas Tur sustenta que outras cores e combinações, como o branco, o tigrado, o areia e o cinza champagne, fazem parte da história e da autenticidade do Fila. O texto insiste que a qualidade de um exemplar não deve ser julgada exclusivamente pela cor de sua pelagem, mas por sua correção, tipicidade e valor racial.
A versatilidade no Fila Brasileiro, julho de 1993
Autor: Clelia Kruel Desenho: Camburi do Embrema Publicado em: Revista «Club Español de los Molosos de Arena» Data: julho de 1993 Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo apresenta o Fila Brasileiro como uma raça profundamente ligada à história rural do Brasil e destaca sua versatilidade como cão de guarda, caça, companhia e trabalho. Clelia Kruel repassa sua evolução desde os campos brasileiros até as cidades, seu reconhecimento internacional e seu papel como cão de utilidade em condições extremas, especialmente em testes realizados na selva amazônica. O texto sublinha sua rusticidade, resistência, olfato, força, temperamento e capacidade de vigilância silenciosa.
Comparação dos standards CBKC - CAFIB no Fila Brasileiro, fevereiro de 1997
Autor: Jaime Pérez Publicado em: Revista «Club Español de los Molosos de Arena» Data: fevereiro de 1997 Tradução portuguesa: inteligência artificial O artigo compara os standards CBKC e CAFIB do Fila Brasileiro, abordando as diferenças reais entre ambos os critérios de classificação. Jaime Pérez sustenta que o Fila Brasileiro, como raça, deveria ser único e genuíno, mas assinala que, na prática, existem cães diferenciados fenotípica e genotipicamente. O texto centra-se especialmente no temperamento, no sistema nervoso, na cor da pelagem e na aplicação objetiva do standard.



